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DIA DE SANTO

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01.03.2021

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Os afrodescendentes somam cerca de 50% dos habitantes do Brasil, a segunda maior nação de população negra do mundo. Dentro do mosaico cultural brasileiro esta contribuição na formação da identidade brasileira tem diversas origens culturais e sociais na África.


Porém, esse fato traz um triste legado histórico. A mão de obra escrava foi a base de sustentação de um modelo econômico que sobreviveu por 350 anos sendo o mais perverso, duradouro e lucrativo negócio do Novo Mundo. 
Extraídos a força do seu meio social e natural, condenados a dispersão, mercadejados e vendidos; homens e mulheres oriundos da África, encontravam-se diante de uma situação limite que não temos condições de dimensionar nos dias de hoje.

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As alternativas de resistência a esta brutal realidade foram poucas. Entre as mais conhecidas houve o Banzo, como era chamado o suicídio lento por inanição, e os quilombos, populações de fugidos dispersos por locais distantes e escondidos pelas matas e sertões do país onde viviam sob constante ameaça e perseguição.


Além delas, entretanto, talvez a mais comum e eficaz forma de resistência foi encontrada pelos cultos e manifestações culturais afro-brasileiros. Ao invés da autodestruição ou da guerra, procurou-se enfrentar as mais duras condições com a disposição de perdurar. O instrumento de que se valeram com essa finalidade foi o de transformar o impulso destrutivo em discurso, domesticando assim as ameaças do desespero diante de uma situação limite. 

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"As terríveis provações da travessia do Atlântico não privaram estes povos da memória de seus Deuses"

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Tão pouco os privaram da capacidade de reconhecer os deuses alheios e assim identificarem-se uns com os outros na sua condição de cativos. Dessa forma, estavam dadas as condições mínimas a partir das quais se desenvolveram essa reciprocidade de perspectivas que a cultura afro-brasileira acabaria por concretizar.

Assim, a saída para tal dilema foi, necessariamente, impuro. Basta a simples constatação de que na atual realidade não teria sido possível se todas etnias ou clãs africanos vindos ao Brasil tivessem resolvido manter-se intransigentes na sua fidelidade às teologias e cosmologias originais.

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Já nos porões dos navios negreiros começou a ser negociado esse acordo mínimo em virtude do qual tornou-se possível pactuar a não menos difícil conversão entre orixás, inkices e voduns, divindades e espírito tutelares de etnias separadas, não só pelos seus idiomas e modos de vida, mas, às vezes, pela animosidade profunda da guerra, da conquista e da escravidão.
Ao tomar esta postura, a cultura afro-brasileira foi capaz de produzir esse reconhecimento como um caleidoscópio religioso e cultural a partir da mãe África que intriga e encanta;. O resultado deste processo foi forjado nos ensinamentos da dor e de uma ética do compromisso, o mais bem sucedido esforço para remediar a dispersão e a solidão. 

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"E foi dessa rede de lugares sagrados em torno dos quais os negros consagraram-se e celebram seus ritos."

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Herdeiros das plantações e das minas, do trabalho doméstico nas cidades e da vida nas favelas, evadidos do tempo e deslocado do espaço, os negros construíram ao longo do tempo mecanismos de resistência, onde o consciente folclórico represente uma síntese do inconsciente ancestral.


É o que pretende revelar as imagens aqui colocadas; a partir da origem, as transformações e, principalmente, as consequências do legado cultural de origem africana no Brasil dos dias de hoje. Seja nas relações da arquitetura com a vegetação, as vestes, os hábitos, na angulação recortada em geometrias estonteantes; nas mandalas humanas dos rituais, nos preparativos coloridos que reúnem também peles brancas, pardas além das negras; nos personagens que restauram reinados e hierarquias; nas cenas de esplêndidos artistas; e especialmente, na fusão imaginária, em nossos ouvidos encantados, das batidas dos tambores com a fúria mansa das ondas, que nos fazem compreender por que Iemanjá, a Deusa do Mar, é homenageada através das oferendas lançadas ás águas

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Em busca de descobrir este mundo rico de interpretações, o projeto Dia de Santo dividiu a pesquisa em três grandes grupos sob uma ótica cultural, a seguir: As religiões de origem africana, basicamente o Candomblé e a Umbanda; as tradições religiosas dentro do universo afro-católico amparados pelas Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e, por fim, as festas populares que rementem a memória da escravidão.


Dia de Santo é uma busca visual que procura entender estes caminhos de multiplicação.  O objetivo não é a procura por identificar as raízes mais puras do legado africano no Brasil; ao contrário, aponta para as transformações, o sincretismo e as múltiplas faces das ricas, coloridas e encantadas cenas de celebração. É um testemunho em âmbito nacional, que passou por doze estados da União por um período de mais de dez anos. Uma documentação que traz ao espectador pela primeira vez um panorama amplo da diversidade destas celebrações, percorrendo diferentes cenários do vasto território brasileiro e revelando assim suas influências culturais, econômicas e regionais. 

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É também uma grande homenagem ao legado cultural dos descendentes de africanos no Brasil em um momento que este tema se faz bastante atual com o debate em torno do combate ao racismo e a intolerância religiosa, além da valorização da contribuição cultural da cultura afro-brasileira na formação de nossa identidade nacional.

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